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11405067133_e13ee1ddd8_zCéu claro e tudo tranquilo para o último voo do Mirage F-2000 da  Base Aérea de Anápolis (GO). O clima de despedida pairava entre os presentes enquanto o Capitão Aviador Augusto Ramalho seguia em direção à aeronave, estacionada em um dos hangaretes. O caça Mirage F-2000 então decola para o seu último voo, no dia 31 de dezembro de 2013. Estava encerrada a era em que reinou quase absoluto na defesa aérea e nas missões de interceptação no Centro-Oeste brasileiro.

Naquela tarde, após 40 anos de atividade, o Delta desapareceu no horizonte como uma miragem, assim como na frase atribuída à Dassault Aviation na década de 1970: o Mirage “jamais seria tocado” . O alerta aéreo no coração do país passou a ser respondido por outra aeronave, o F-5.

 

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O Capitão Aviador Ramalho foi o piloto do último voo do Mirage, no dia 31 de dezembro de 2013.

Aquela última imagem do caça supersônico estava carregada de lembranças das missões cumpridas pelo Esquadrão Jaguar.  A partida deixou um sentimento em comum nos caçadores: o tempo parece que passa rápido demais, e mesmo voando até Mach 2, a mudança se mostrou necessária. Na reportagem publicada no site da FAB, o Capitão Ramalho traduziu a mistura de sentimentos de saudade, nostalgia e, também, de missão cumprida. “Nossos Mirage cumpriram sua missão e agora dão espaço a equipamentos mais modernos, um ciclo se completa. É uma honra fazer o último voo, é um misto de tristeza e alegria”, contou o militar. Quer saber mais sobre este dia? Assista ao  Conexão FAB, da FAB TV e veja a reportagem publicada no Portal FAB. Você pode encontrar belas fotos do Mirage F-2000 no Flickr da FAB.

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Visão do piloto durante a decolagem.

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Mirage F-2000 em pleno voo.

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Mais uma bela imagem do caça francês que voou 40 anos no Brasil.

História

Foi na cidade de Dijon, na França, que os pilotos brasileiros entraram em contato com os novos caças pela primeira vez. Os “Dijon boys” realizaram missões com instrutores franceses a bordo dos Mirage III, avião já testado em combate por Israel, na Guerra dos Seis Dias (1967). Como Leandro Maldonado e Jean-Michel Guhl contam no livro 40 anos de “Mirage” no Brasil, o primeiro pedido foi feito em 1970 e um lote adicional começou a ser entregue em 1980. Naquela época, os Mirage da FAB tinham uma pintura de proteção em alumínio. “Era muito diferente do que a gente estava acostumado. Se bem que não se sente que está voando supersônico, a não ser pela loucura que dá nos instrumentos quando se quebra a barreira do som. Na volta para o subsônico é que se leva o tranco”, disse o Coronel Aviador Antônio Henrique Alves dos Santos, o “Jaguar 01”, líder da equipe que primeiro voou o caça no Brasil. Saiba mais. Em 1973, o primeiro Mirage III EBR da FAB chegou ao país.

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A pintura prateada marcou os primeiros Mirage III da FAB.

 

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O Mirage III com a pintura comemorativa dos 30 anos de atividade.

A frota de Mirage III sofreu algumas baixas e outras 16 aeronaves foram compradas da Força Aérea Francesa. Depois de 33 anos de serviço e 66.000 horas de voo em missões e exercícios, como a Operação Tigre II com a USAF, em 1995, Cruzex I, em Canoas (RS) e Cruzex II, em Natal (RN), o caça foi substituído por uma versão mais moderna, o Mirage 2000 RDI.  A FAB adquiriu 12 caças da Força Aérea Francesa em 2005. A nova aeronave colocou os jaguares em contato com tecnologias utilizadas no novo combate aéreo, como mísseis BVR (além do alcance visual), radar de alta capacidade, navegação INS centralizada, contra-medidas eletrônicas, alta manobrabilidade e controles fly-by-wire. O final de tudo você já conheceu. Foram 10.462:10 horas de voo entre missões de treinamento, avaliação e qualificação de pilotos, interceptações, combates simulados e operações militares. Mais detalhes da desativação do Mirage estão na Revista Aerovisão.

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Esquadrilhas de deltas em missão.

Saudades

No momento, dois pilotos e sete mecânicos se revezam nas funções no Primeiro Grupo de Defesa Aérea (1ºGDA), na Base Aérea de Anápolis, em Goiás. Um dos mecânicos é o Encarregado da Linha de Voo, o Suboficial BMA Ricardo Dias, com 28 anos de serviço na BAAN. O primeiro contato do militar com o caça supersônico foi em uma visita à Base Aérea de Santa Cruz, durante uma Reunião da Aviação de Caça. O então adolescente de 16 anos se encantou com o Mirage III e, a partir daquele dia, escolheu a sua profissão: mecânico de aeronaves. Mais precisamente, do caça que tanto admirou.  De aluno em Guaratinguetá (SP) foi direto para Anápolis. Depois de tanto tempo em contato com o caça nas versões Mirage III e Mirage 2000, o Suboficial conta as conquistas que teve depois de anos de serviço.

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Mecânicos trabalhando antes do último voo do Mirage F-2000.

“Quando eu escolhi ser mecânico de Mirage foi um momento ímpar,  não tenho como descrever a sensação de ser um dos poucos mecânicos a fazer o giro do avião (dar a partida e, depois, o giro de motor). Isso foi quando eu ainda era Terceiro Sargento e lembro da sensação até hoje. O GDA me deu muitas oportunidades na carreira. Eu fui o encarregado da linha de voo até o final do ano passado da única unidade militar do Brasil a pilotar o caça.  Estive na França em 2000, fiz o curso para o Mirage 2000 e fui instrutor de 2006 a 2008 dos mecânicos que chegavam na unidade e não conheciam o caça. Existiam muitas diferenças entre o Mirage III e o Mirage 2000 e, antes da viagem, tivemos uma preparação muito boa no GDA”, conta o Suboficial Dias.

Ele também lembra dos dias de trabalho antes das missões. “Eu lembro das muitas vezes em que virei  a noite na véspera de uma missão. Eu saía de um avião e, logo em seguida, passava para outro. Todos os Mirage tinham de estar disponíveis às 8h para uma viagem a Natal ou a Fortaleza. A maior realização para um mecânico é deixar as aeronaves com 100% de disponibilidade. Eu acredito que alcancei o auge da minha carreira depois de anos com o Mirage  e, agora, entro em uma nova etapa, com os caças F-5. Eu optei por permanecer no GDA, não me vejo em outro lugar na FAB”, recorda o militar.

Eletrônica inédita no país

E como era lidar com equipamentos eletrônicos como o VHF, VOR e IFF? O  Suboficial Especialista em Eletrônica José Carlos Massi passou 22 anos da sua carreira na Aviação de Caça e nove anos em companhia dos Mirage III. Hoje na reserva, o militar recorda quando saiu da Escola de Especialistas de Aeronáutica para o Setor de Comunicações, Navegação e Identificação da 1ª Ala de Defesa Aérea (1ª ALADA), unidade militar que precedeu o GDA. O ano era 1975:

“A minha família mora em Anápolis e eu escolhi a unidade militar por este motivo. Eu não fui para a Aviação de Caça por querer, mas aí entrou no sangue e “a la chasse” (expressão francesa que significa “à caça”. Utilizada pelos pilotos de caça)!” Brincadeiras à parte, foi fantástico trabalhar com o Mirage III. Era uma aeronave moderna, diferente de tudo o que eu já tinha visto na Escola, não tinha nada parecido no Brasil. Eu aprendi muito com os sargentos mais antigos porque não era qualquer um que servia na 1ª ALADA. Os militares designados para Anápolis foram alguns dos melhores especialistas em Eletrônica na FAB e trouxeram os conhecimentos sobre o Mirage diretamente da França. Uma das melhores coisas na 1ª ALADA era a amizade no ambiente de trabalho. Você dificilmente trabalhava sozinho na manutenção”, lembra o Suboficial.

Depois da BAAN,  Massi serviu no Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (RJ) e retornou para a Aviação de Caça no Esquadrão Adelphi, na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), e no Esquadrão Poker, na Base Aérea de Santa Maria (RS). Na última unidade militar, participou da implantação das aeronaves de ataque A-1 no Brasil.

“A minha vida foi a Aviação de Caça. Lembro quando virávamos as noites trabalhando para deixar as aeronaves disponíveis. O Mirage foi a minha escola. Uma aeronave é diferente da outra, mas posso dizer que a rapidez na montagem e desmontagem dos aviões e na descoberta das panes de cablagem (dutos de fiação elétrica) foi adquirida nos anos de GDA. Precisávamos ser rápidos para que os caças ficassem perfeitos durante os treinamentos de tiro aéreo”, conta o militar.

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Hangaretes na Base Aérea de Anápolis

No canopi

De 1973 até 2013, cerca de 250 pilotos foram qualificados no Mirage. Entre eles, está o Tenente Coronel Aviador Eric Breviglieri, último comandante do GDA. O experiente piloto de caça deu o seu depoimento no livro de Maldonado e Guhl:

“No período de 2006 a 2013, 24 pilotos conquistaram o título de Jaguar ao solar a aeronave Mirage 2000, totalizando assim 249 “Jaguares” que tiveram o prazer de voar um Delta Supersônico no GDA. Nesse ponto, posso me considerar  um grande sortudo. O desafio do Mirage III era equilibrar o uso de sua força com o seu espírito temperamental, tendo em vista que ele não admitia muitos erros por parte daqueles que o conduziam. Já o Mirage 2000(…) exige um maior gerenciamento do sistema de navegação e armas. E, a mim, foi dada a oportunidade de voar os dois!”.

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O Tenente Coronel Breviglieri na passagem de comando do 1º GDA.

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