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141118REZ9379(C)Paulo_RezendeImagine uma caminhada de quatro dias sob chuva constante e um trajeto de subidas difíceis e perigosas. Na bagagem, suprimentos, profissionalismo, técnica e coragem. O destino? O ponto mais alto do território brasileiro. A missão: Trocar a Bandeira Nacional. A partir de agora você acompanha os bastidores desse desafio. Esse é o relato da Tenente Jornalista Jussara Peccini e do Sargento Fotógrafo Paulo Rezende, enviados especiais do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, que acompanharam o último dos quatro dias encarados pelos militares do Batalhão de Infantaria de Manaus, responsáveis pela tarefa de chegar ao Pico da Neblina, numa missão pouco conhecida dos brasileiros, mas tão simbólica para a nação. Imperdível!

Você teve medo? Não deu tempo sequer para pensar em sentir medo. A caminhada no quarto dia, quando acompanhamos o grupo de 13 militares do Binfae Manaus, começou às 5h20 da manhã, iluminando o estreito caminho com lanternas individuais. Paramos por 30 minutos no topo do Pico da Neblina por volta do meio dia e voltamos a caminhar, debaixo de chuva intensa. Regressamos ao acampamento às 20h. Foram praticamente 15 horas ininterruptas de caminhada, mesclando barro e pedras. É dessa fase, da saída para o Pico ao retorno às barracas, que falamos a seguir.

Neste último mapatrecho, depois de vencer a mata densa das montanhas, só restam pedras. E eram muitas, enormes. Momentos em que não caminhamos, rastejamos. Qualquer deslize pode ser fatal. E é preciso lidar com o ar rarefeito. Saímos do Garimpo da Pepita com dois mil metros de altitude para chegar a quase três mil metros. Andávamos poucos passos e logo ficávamos ofegantes. O terreno é muito íngreme.

A parte mais difícil, ou talvez, desafiadora – para usar um termo mais ameno -, foram os lepards (escalada). É você, a corda e a pedra. Tem que confiar e segurar firme. Ah, e detalhe, melhor não olhar para baixo.

Algumas subidas não tinham cordas e as pedras não eram tão pequenas a ponto de delinear uma escada. Foi preciso força no braço e usar as pernas para ultrapassar os obstáculos. Não há uniforme que resista.

O Pico da Neblina tem esse nome justamente pela intensidade do nevoeiro que cobre a montanha praticamente o dia inteiro. Foi por apenas alguns instantes que conseguimos avistar, no meio da subida, o vale. É imenso. E lindo. Foi nesse ponto que, sem a névoa branca, conseguimos ver o tanto de pedra que ainda tinha pela frente.141121REZ9753(C)Paulo_Rezende

Aliás, sempre que perguntávamos ao guia quanto faltava a resposta era a mesma: “duas horas”. Na mata, o percurso é contado por tempo e não por quilômetros. São muitas subidas e descidas. Só quando o GPS apontou 2.990 metros de altitude é que acreditamos que estávamos realmente chegando.

O141121REZ9877(C)Paulo_Rezende que a gente comeu? Por mais incrível que pareça, não sentimos fome no percurso. Nossas armas eram barrinhas de cereais, bala de goma, rapadura. O imprescindível mesmo é a hidratação. Beba água mesmo sem sentir sede, nos falaram os mais experientes. No cantil adicionamos solução de reidratação, para ajudar a repor os sais minerais.

A descida foi mais castigante. Não temos fotos da volta porque choveu o tempo todo. Em meio a tantas pedras, a água ganha força com a correnteza e viram corredeiras. Tivemos que atravessar uma delas.

Chegamos ao acampamento no escuro, depois de quase duas horas caminhando novamente sob a luz das lanternas. A fadiga muscular e o frio faziam o corpo tremer. O Cabo Henrique nos recebeu com chocolate quente. Um gesto simples valiosíssimo para nós. Você não tem ideia de como uma caneca com bebida quente foi importante naquele momento. Ainda conseguimos abrir uma lata de sardinha, partilhada por três, acompanhada de torradas. O ‘jantar’ antes de entrar na barraca e se abrigar no saco de dormir.Rezende

Só na manhã do dia seguinte é que lavamos o uniforme e o coturno. Retirar o excesso de barro para vestir a mesma roupa. Sim, molhada e fria. Uma das leis da selva é cuidar do corpo. Na hora de dormir sempre tenha roupas secas e limpas. Para a caminhada, o uniforme molhado não faz diferença pois dez passos depois, de qualquer forma, você estará com os pés molhados.

141119REZ0016(C)Paulo_Rezende (2)Quando pensamos que tudo estaria resolvido ainda faltava o resgate. No dia seguinte desmontamos acampamento e às 9h da manhã já estávamos de prontidão no local onde o helicóptero pousaria, uma pequena elevação em meio ao descampado. Mas a aeronave não chegou. O tempo estava fechado. Logo começou a chover e assim ficou até por volta de 17h. Ficamos todo o tempo debaixo de uma lona. Outra parte do grupo dentro de uma caverna.

No final do dia, depois de 8 horas (parte desse período em pé), quando finalmente a chuva cessou e foi possível avistar no horizonte o cume das montanhas, os militares mais experientes correram para montar o rádio e tentar contato com o Pelotão Especial de Fronteira de Maturacá. A apreensão era grande. Se o helicóptero não chegasse teríamos de montar acampamento outra vez.

Chegar no topo é emocionante. Além de cumprir a missão, é sem dúvida uma vitória pessoal. É uma oportunidade de descobrirmos nossos limites. Talvez desconheçamos a força que temos.

*Sobre essa experiência, a Tenente Jussara ainda produziu uma matéria especial para a primeira edição de 2015 da revista Aerovisão. Lá você encontra outros detalhes e curiosidades da aventura. É só clicar:Nova Imagem (1)

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